Porta fechada, tranca trancada, a luz entra pela veneziana e
esquenta o piso de madeira. Estalos são jogados ao ar. A fumaça do incenso
plaina, o perfume preenche e a cortina, com a figura do comandante, esconde a
parte esquerda da janela permitindo que a luz só entre pela direita. “A
esquerda sempre no poder”, pensou e sorriu enquanto admirava o lustre
empoeirado. O corpo já reclamava da inércia. Olhou as horas e concordou. Sim, já
estava na hora de ganhar a vida e colocar rumo na caminhada. Escorou-se no braço esquerdo, elevou o tronco
até que se formasse um ângulo de noventa graus, jogou as pernas para fora da
cama firmando todo o resto nas mesmas. Grunhiu!, “É, a vida começa as sete...”
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
domingo, 9 de dezembro de 2012
Não me toque!
Menina, não me toque, não é chatice, nem mesmo fricote, só
te peço pela milésima vez, não me toque.
Não sou o que pensas, muito menos o que não pensa, a vida é
assim, hoje eu, amanhã você, simples assim.
Menina, pela milésima vez, não me toque, nem me enconche,
pois neste mundo donde vivo, quero ser molhado pela chuva que cai.
Nada mais é o que precisa, nada sou, nada és, nada nada...
Apenas suplico, não me toque...
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sábado, 8 de dezembro de 2012
Sonhos intranquilos VI
Em certo momento sinto ela me deixar. A noite foi quente.
Aqui, deitado no chão da Praça da Estação, vejo o metrô passar a noite inteira.
Ele vem, vai, volta e mesmo assim minhas esperanças continuam mortas. Sinto, assim, o vai e vem de tudo. Melodia que cessa, desejo de encarne, algumas
coisas são eternas, seu sorriso a me cutucar pela manhã frias de dias azuis,
meu desejo de ter desejo, a vida que passou de ontem pra hoje. Eternidade em
pequenos espasmos mercadológicos no hemisfério norte da Tereza Santa. Meu corpo
expulsa o que não é mais meu. Meu, seu, teu, luz de lamparina, olhar de rapina,
insanidade insana pelas manhãs, manhas, entranhas, incompreensão compreendida
nas feridas que brotam todas as manhãs entre meus dedos, dentes, pelos, ossos,
esforços... Intensidade de dor, contundente, con-tun-den-te, mesmo assim, em
cima deste banco da praça, contesto o que não quero mais, leite moça, leite de
moça, meu leite a esguichar do canal deferente, diferentemente daquela época em
que desejava nada. Hoje, aqui, estendido
entre folhas de jornais lidos por alguém que já nem sei quem sou, fico
horrorizado com tudo isto que ficou pra trás. Traz de volta aquele tempo? Claro
que não. Tempo é tempo, dei-me um tempo, deixe o tempo tempar em dias
estranhos, necessito apenas de uma coisa. Isto é fato. Coisa louca de viver
vidas viventes de seres vivos. Viva! Viva! Não é festa, Ernesto, é apenas minha
clama para que você continue comigo. Vamos, meu amigo, deitemos em lençóis mais
alvos em camas menores. A caminhada é longa e o mundo, este na qual mendigamos
um naco de vida, está para terminar. Que termine então, pois assim, posso
caminhar ao invés de mendigar. Vamos Ernesto, a vida vem e vai e volta, em
trilhos sinuosos...
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Sonhos intraquilos
Dezesseis
Pela manhã, um sol, uma dor, uma falta, um tudo que antes era nada. Desejos, infundados?, dezesseis palavras que me fazem pensar...
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Andança
Em notas musicais, tenho sede de você, noite adentro, dia
afora, em santa terra, ou na boêmia zona, subo Itapecerica, sorrindo cores,
estaciono e me pego a olhar e sonhar em teus sorrisos alvos.
Louca solidão, que me arrancaste, e desinteressada na troca, destes você, de
bandeja cravada de diamantes, desfila agora, ao meu lado, no meu lado, dentro
de mim, sejamos um, sejamos nós dois, sejamos mais.
Desejos, desejos e desejos. Sede de tua boca dentro da
minha. Aguça o homem que fui, sou, serei. O tempo não importa... pegue, e
furtiva, me leve, bailamos nas notas que nos cercam...
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Só-lidão
Tarde da noite, um desejo, o copo findado sobre a prateleira,
doses cavalares de álcool. Paisagens passam pela cabeça. Lágrimas descem e
encantam o peito aberto e rasgado, maisumavez.
Estava tudo tão perfeito. Havia um copo, um corpo, um coito, um... um...
E agora, estou aqui, novamente, só. Somente a solidão me abraça, seja em dias
senis ou juvenis. Ela chega, abre a porta, expulsa quem quer que seja e me
abraça. Leva pra cama. Coloca-me em teu colo aveludado. Me amamenta com suas
grandes e divinas tetas, e finalmente, adormeço.
O dia amanhece, e novamente, a dor chega. Chega, rasga,
praga, me larga, me deixe, quero encontrar alguém, correr pelas ruas da cidade,
gritar na Praça Sete e demonstrar a cadaumqueviveporaqui, que estou vivo.
Vivo!, e vivo. Vivo pra viver a vida. Alegria contagiante de corpo e cor. Cor.
Amarelo, verde, vermelho, azul e lilás. Fortes e alegres. Alegria me invade o
corpo. Largo o copo, abraço o sol e me enfeito em cores. E com um pequeno
espasmo de vida, reencontro um novo sorriso. E flerto com a vida. Ela chega, me
abraça, me leva aos céus, arranca minha roupa, deita-me em lençóis alvos e me
come. Unhas, dentes, saliva e sodomia...
A noite aparece, com ela um copo, sem corpo, sem nada, sem
vida, sorriso não há, beijos não os tenho, carícias me abandonam em pele flor.
Mãos aos cabelos e cantarolo o Tremendão: “Mas eu não
posso, não posso, nasci para chorar”
Texto inspirado em "Nasci para chorar"
http://letras.mus.br/roberto-carlos/48636/
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domingo, 25 de novembro de 2012
Ensaio
Porta fechada, tranca trancada, a luz entra pela veneziana e
esquenta o piso de madeira. Estalos são jogados ao ar. A fumaça do incenso
plaina, o perfume preenche todo o espaço, a cortina, com a figura do
comandante, esconde a parte esquerda da janela, permitindo que a luz só entre
pela direita. “A esquerda sempre no poder”, pensou e sorriu olhando para o
lustre empoeirado. O corpo já reclamava da falta de vida. Olhou as horas e
concordou com o habitáculo da alma, já estava na hora de ganhar o mundo e colocar
rumo na caminhada.
Café quente na xícara esmaltada. Aroma da casa da mãe. Mãe
que não havia mais. Deixou-lhe para trás naquele dia de maio. “Logo maio?”,
sempre pensava nisto pela manhã enquanto
fazia seu ritual do amanhecer. Sua lembrança a trazia de volta. Ela
podia estar ali, ao lado, sentada no mesmo sofá. Com a TV ligada. Desenhos,
quadros, flores, afazeres do dia-a-dia. Olhos
se enchem, coração vazio, desejo de ver tudo pelos ares. São Paulo explodia sua
cabeça e milhares de coisas a fazer. E o corpo, continuamente, reclamava da
falta de vida.
A rua era tudo que restava-lhe. A Penha lembrava-lhe Teresa.
E o corpo, sem cessar, reclamava da falta da vida.
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