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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um tiro, um único maldito e certeiro tiro. Bum!

Um tiro, um único tiro. Bum! O gatilho sendo apertado, o tambor gira, o martelo é empurrado para trás... O buraco aberto no tórax, uma dor tão intensa quanto à perda do amor ocorrida naquela mesma manhã de sexta-feira. O sorriso dela foi algo inconcebível, as palavras saltando-lhe a boca e martelando o meu tímpano: “Eu nunca te amei. Você não passa de um degrau onde gosto de subir.” A falta dela me faz ficar mais frio, menos vivo.

Um tiro, um único e maldito tiro. Bum! A mola traz o martelo para frente em alta velocidade. A agulha está à frente e... bimba! Acertou a cápsula. O sangue rubro jorrando internamente. Sinto meu estômago ficando pesado. Ânsia a todo o momento. Porque me entreguei? Devia ter lutado ao menos mais alguns minutos. Força foi o que me faltou.  Não tive fé. Como o frio que me acometia há segundos atrás, agora é a falta da mesma força que me fez baixar a guarda. Sinto-me fraco, sem vontade, infeliz.

Um tiro, um único e certeiro tiro. Bum! A pólvora explode. O projétil é expulso da cápsula. O gás faz com que o projétil seja expulso do cano. Nas ranhuras do maldito cano ele vem rodando, como se estivesse em um parque de diversão. Feliz com o gira-gira vem ganhando mais velocidade. E ela feliz agora. Brincando com seu parque em outro terreno. Fico infeliz por ter deixado ela me controlar. Ma-ni-pu-la-do, foi assim que a vida seguiu até, finalmente, ela me deixar de La-do. Era seu mais lúdico jogo: “Enganar o palhaço”. Deve ser assim que ela me achou. Em minha testa devia estar escrito ”Palhaço”. E em meu paletó o manual de instruções. Entreguei-me. É fato.  Assim como vou me entregando agora que a força e a fé me faltam. O frio cada vez mais gélido. O amor a esvaziar-se em meu estômago. Meu sangue... meu amor... minha vida...

Um tiro, um único e maldito tiro. Bum! O projétil vem voando loucamente em minha direção. Seiscentos e cinqüenta quilômetros por hora. Em frações de segundo me acerta. As luzes começam a se apagar. Esvazio o coração. As pernas vão ficando cada vez mais frouxas. Minhas mãos já não empunham reação alguma. O desejo da vida é exaurido do meu Eu. Caio ao chão. O perfume dela me esfria as lembranças. Um salto vermelho-grená me acerta o buraco no peito. A dor aumenta. A vida diminui. Penso nas promessas, nas festas, no sexo. Gozos e gozos. Desejos e solfejos. Líricas no meio conturbado urbano. Meu cotidiano findando naquela tarde de sexta-feira. Desejava um final de semana. Ganhei um final de vida.

Um tiro, um único maldito e certeiro tiro. Bum!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O frio no Vale do Sol

Pela escuridão do vale do sol, ele andava. Chutava latas e aslfato. Tudo ali era inexato. Avenidas com nomes de quintas e primeiras, já as ruas, com nomes de planetas. E o vale do sol, naquela madrugada, como era de costume, estava frio... gélido. 

Caminhava por ali, sempre ao voltar de algum lugar, sempre sozinho, sempre por ali. Nada daquilo fazia sentido, o sol do vale nunca era verdadeiro. O frio sim era legítimo. Tão real como o fim do universo e o medo gritante que rondava o seu vale do amor.

Ela, a maldita, o havia deixado mais uma vez. E ele, louco e tonto, torto e morto, sofria ao anoitecer... há saudade... ah saúde... há alguma coisa que precisava de ser revista. Tentava descobrir o porquê do fim. Ele ali, andando pelo vale do sol, no frio da noite, sozinho como não queria.

“Pessoa maldita”- ficava a pensar. “Pessoa nefasta”- ficava a penar...

Na curva, um carro, uma luz, o calor percorria o corpo, ela a sua frente, o vazio no bolso, a dor do amor, o nojo do gosto, o vento no ventre, a sombra da luz, o sono frio no Vale do Sol...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Uma pinga, uma marica e um cobertor fétido

Não leve nossa conversa para o lado da galhofa, o papo é sério! – falava nervoso ao comparsa, enquanto acendia a marica. A noite havia sido tensa, uma correria só. Depois do assalto, efetuado na região da praça da rodoviária, a fuga insana pelas ruas que rodeiam a Paraná, o descanso, embaixo do viaduto, era merecido.

Um trago de pinga, um trago na marica, o cobertor fétido o aquecendo e agora, por mais absurdo que poderia ser, aquela discussão idiota.  Quem ficaria com o prêmio da corrida ilegítima? Ele que percorreu grande parte do percurso com os gambés em seus pés, ou o parceiro que apenas ficou olhando na esquina da Afonso com Caetés?

Mais um trago na pinga e na marica, a vista acinzentou-se. Um leve tremor em suas mãos. A vida esvaziava diante de seus olhos. A chuva lavava e levava o rubro líquido escorrendo ao lado. A discussão acabou...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Três “eme”

O inferno estava ali, a merda espalhada pela calçada, o fétido sabor da morte rondava seus olhos negros, a miséria estampada nos rostos de qualquer ser presente naquele espaço. Nada, tudo, merda, porra e mais nada. Sobe escada, desce escada, abre porta, fecha porta. Putas e travecos num meio comum. E ele ali. Espiando o brilho da faca que acabaria utilizando em qualquer coisa que cruzasse seu caminho. Doses cavalares de aldol eram utilizadas para adormecer a besta-fera. O cuspe cuspido na ponta da faca a deixava mais mortal. O vírus da merda nela. A merda da vida no sangue. O sangue rubro, fétido escorrendo pelas mãos do algoz justiceiro. Merla, merda e morte. Três “emes” necessários na vida dele. A besta.

Merla na veia. Merla no espírito. Merla na alma. Merda de veia que não aceita a merla. A viagem perfeita, a euforia extasiante. O universo fica pequeno. E com ela, todos se rendem ao sabor da morte azeda vinda da faca de metal cuspida. A ponta entra cortante cal-ma-men-te. Merla sem dentes. Sistema nervoso oscilante, extravagante, emergente, impotente em resolver o que deve ser feito e o que deve ser morto. Merla sempre...

Merda é a vida vivida por estes que se sucumbem ao inferno do escroto que passa com a grana em sacolas verdes com nomes sugestivos gravados em suas bordas. Fracos que vivem na merda. Merda é o sentimento profundo em que a besta segue vivendo. Besta que reúne o poder da cura dos males destes que se ajoelham ao deus babaca que seguem. Merda é sentir o desejo infame de viver com eles até o exato momento da ruptura carnal... “Seu espírito agora encontrará a paz”, a besta entregava o corpo a merda da vida e o espírito a salvação. Sentia-se um padre. Um padre?! Merda sempre...

Morte sempre para a purificação do individuo falido da moral. Morte sempre para quem ousasse atravessar o seu caminho. Morte sempre àqueles que não jurassem lealdade ao seu deus. Morte sempre a quem não convertesse seu coração maldito a maldição da besta. Besta redentora, utilizando a faca espessa e polida com os sangues dos malditos que foram dessa pra melhor. Melhor morrer a viver neste inferno de vida. Morte sempre...

Merla, merda e morte!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

La bestia

E no meio da noite, sentado a frente do portão, com as mãos sujas de sangue da última vítima, fica pensativo. A queimação lhe subia no esôfago e ele pensava no que poderia fazer se não fosse o que era. Não tinha mais medo. Perdeu a inocência. Os sonhos tenros da infância perfeita já não havia. Nada além da besta-fera que se transformou passava em sua mente. Atos exatos do mais violento assassinato. Sangue, dor e solidão.

O suspiro final de suas vitimas o deixava louco, e ao mesmo tempo enchia de fé o coração amargurado da dor do próximo. Sempre que executava uma pessoa, a obrigava a aceitar o Senhor em seu coração. O mesmo coração que em poucos minutos estaria em suas mãos. O mesmo Senhor por quem esperava ser julgado e condenado. Os batimentos eram exauridos aos poucos, len-ta-men-te, como a vida nos olhos do pobre coitado que até pouco tempo estava indo para casa, trabalho, zona, restaurante, ou qualquer lugar. Que infelizmente, por uma triste e infeliz coincidência, não iria mais existir. E a dor do pecado mortal, “Não matarás”, o sufocava loucamente.

A noite escura. A dor imensurável. O inseto voando em torno da luz. Ele ali. Sentado. Pensando no que poderia ser se não fosse aquilo. Aquele ser estúpido e insensato que seguia as regras de seu instinto assassino. Não queria mais fazer aquilo, mas era inevitável. O inferno da vida era presente em cada minuto. A dádiva da dor. Em cada segundo. E as gotas de sangue escorriam pelos dedos e manchava a calçada em frente à casa de um qualquer. Qualquer um poderia passar ali e notar que a criatura ainda estava ali, com o coração nas mãos e as preces elevadas aos céus.

Levantou-se. Olhou o céu. Com o Pai em mente, sorriu. Entre seus dentes o liquido que acabara de golfar escorria queixo afora e manchava-lhe a camisa alva. Com uma única cusparada limpou toda a sua boca. Com as mangas repletas do líquido rubro, misturou a dor do outro com a sua dor. Elevou as mãos acima da cabeça e reverenciou o ato macabro mais uma vez. Sorriu novamente. Pôs-se a andar até a esquina próxima e de lá seguiria até sua casa, onde finalmente, tomaria um banho de sal grosso para retirar toda a energia negativa do corpo e definitivamente dormir nos braços da amada vida que lhe foi dada.

A alvorada chegava estupidamente como a vida escapara dos olhos. O coração estava em outras mãos. Na última visão, a besta sorria. O banho de água gélida e salgada o despertava e trazia uma leve decência em sua vida. Vida porca de sujeito matador, que a seu ver, seguia ordens de alguém que não sabia quem era. Mas, como não podia lutar contra tudo e todos, achou por bem, aceitar a indesejada vontade de ir contra algo que não sabia o quê. Devaneios estúpidos de um ser estúpido. Ladrão de sonhos, agente do inferno em nome de Deus. “Fulano, sicrano e beltrano”. E a música embalava seu banho de decência indecente. A limpeza do pêlo pelos poros normais arrancava-lhe a cor encarnada do sangue jorrado pelo coração furtado. E o sorriso morto rondava seus dias.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A pedra

E quem de vós, parados aí na esquina, teria a audácia de chegar o dedo em minha cara e me dizer com a cara deslavada que eu não sou e nem serei - em qualquer momento desta minha vida ordinária e suja - feliz? Sim! Feliz como os corvos que passeiam por aí, ou como os abutres que ficam a esperar a merda da morte acontecer e assim celebrar a celebração da morte. E até mesmo como o rato que se deleita nos restos dos restos restados dos dejetos dos pobres e infelizes como nós. Quem de vós? Quem?

Homens fétidos, vida injusta, pessoas pútridas, menções nojentas. Vós, nós, e diria que até o algoz. Nada. Nem tudo, nem mesmo um jumento mais sortudo. Ninguém poderia riscar o dedo no espaço entre mim e tu, ou ele, e dizer escancaradamente: “Vós, meu amigo fétido, sujo e promíscuo, nunca será feliz! Maldito sois vós com todos os seus defeitos e trejeitos. Maldita é a vida que tu carregas. Maldito é o mundo que desnuda nossos corpos e coloca-nos em vitrines expostas como vacas mortas e bezerros quentes. Largue a mão de ser demente e tente, ao menos uma vez, viver como gente”

Nem mesmo depois deste sermão, irei olhar para vós com piedade. E espero, profundamente, que ao acordar não veja mais nenhum de vocês rondando minha morada. Meu invólucro da vida é meu. Meu corpo é a minha morada. Minha morada é meu templo. Meu deus é o desnudo. E assim... sumam, desapareçam e nem pensem em voltar quando queimar a próxima pedra e viajar no inferno que a vida me prometeu.

Desta maneira, ele acordou, virou para o canto, pegou o cachimbo, colocou mais uma pedra, ascendeu o isqueiro, e novamente a vida se exauria de seus pulmões.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ela e ele

Dezoito horas e eu aqui parada nesta esquina estranha. Tudo começou quando recebi a ligação dele. Há quanto tempo não ouvia aquela voz. Na hora que atendi, e reconheci quem era, meu coração palpitou. Bambeei as pernas. Senti um calor enorme. Aquele filho da puta não me procurava não sei há quanto tempo. Da última vez me usou e largou-me lá, no motel, com a conta pra pagar. Mas hoje, ao telefone, me disse que mudou. Que agora a coisa seria diferente. E eu, idiota apaixonada que sou, aceitei mais uma vez, dar-lhe a chance que pediu. Agora estou aqui nesta esquina, esperando o puto aparecer. Ai!, como sou idiota.

Eu sei, mulher é um bicho esquisito. Mas sou assim... apaixonada! Mesmo sendo por ele, não tenho vergonha. Já me falaram um monte, mas sabe como é, quando a coisa pega e a pegada é forte, a gente fica louca. Existe aquele ditado machista: “Amor que fica, é amor de pica”. Confesso que no início achava ri-dí-cu-lo, mas hoje, com esta experiência toda que tenho de vida,nestes meus dezenove anos de idade, concordo plenamente. Ele, por exemplo, só de pensar fico toda molhada. Vá entender bicho-mulher.

Lá vem ele. Não muda mesmo. A mesma calça jeans lavada, o tênis desamarrado, barba por fazer e aquele sorriso amarelo. Não sei o que vejo neste traste. Mas ele me fascina. Atrasado como sempre. Olha o andar dele, desengonço só, chego até ter dó. Mas quando me pega nos braços, começa a me beijar, vou às alturas. Sujeito sacana. Um puto na cama. Deixa-me retocar o batom, ele ama. Uma nova pincelada do perfume. Ajeitar a calcinha, colocando bem gostosa. Ajeitar o cabelo... pronto!, agora serei dele.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Um uísque, uma mulher, um pecado.

Ele ali. Assentado naquela mesa do bar. No fundo, na última mesa. Sob a penumbra. O uísque no copo com gelo a refrescar o hálito amargo da semana. O cigarro entre os dedos da mão esquerda. A fumaça a exaurir no espaço. Na vitrola uma música qualquer. Nem estava dando atenção ao que escutava. Apenas estava ali, fumando, bebendo, sonhando. A solidão ao lado como a melhor companhia, naquele momento. Mais nada. Mais ninguém. Apenas os dois.

A luz entra pelo vão da porta de ferro, junto com a luminosidade um vulto. O vulto se transforma numa bela silhueta. A silhueta se transforma. Ela chega! Sorri. Ele se encanta. Observa os grandes seios e a bela bunda. Um trago no cigarro. Um cheiro de menta. O sabor do perfume Dior penetra pela narina adentro. Arrepios. O mastro dá sinal. Ele levanta.

No balcão melado de cerveja derramada por outro qualquer, eles se encostam. Ela de costas pro balcão. Ele de frente para os seus grandes seios. Um trago no cigarro, outro no uísque, uma piadinha infame, um sorriso amarelo, uma cantada barata, um sorriso vagabundo, uma nota de cem reais enfiada na bolsa de mão, um acordo comercial. O hálito amargo da sexta-feira desaparece dando lugar ao hálito de feromônio.

A calça de oncinha grudada na pele demonstra a evidência de uma bela e suculenta anca. A placa vermelha demonstra o destino final dos dois corpos. Num amor pago, ele encontra a felicidade perdida no início do expediente. O céu era novamente seu. Em meios aos belos seios ele se acha um anjo que acabara de cair do céu. Seu céu. No deslizar dos corpos sobre a cama, ele arranca a pele da onça. O triângulo da perdição aparece. Ele, sem pensar, se entrega ao inferno. A santidade some. O céu escurece. Os olhos se completam. O sexo é feito.

A fumaça o desperta. Ele abre os olhos e se sente novamente aliviado. Olha para os lados, reconhece cada milímetro que lhe cerca. O Uísque ainda no copo o convida para mais um beberico. Espeta a linguiça defumada na tijelinha de metal. Olha para a porta e vê algo que lhe desperta um temor. O vulto da silhueta que o encantara naquele minuto de solidão. Sem pensar duas vezes, retira uma nota de cinquenta reais e deixa sob o copo.

Pensando na esposa que o esperava, sobe no ônibus e segue para casa. Aliviado do pecado infernal que não cometera.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma dose de conhaque

O álcool já demonstrava seus efeitos. A noite fria sugeria mais uma dose do conhaque para aquecer-lhe novamente o peito. Estava ali, naquele bar da praça, ao menos umas duas horas. Não sabia o porquê de estar ali, entre tantos bares foi parar logo ali, ao lado da casa dela.

O coração apertado, o sexo em atraso, o amor desleixado. Saudades do corpo que, até há pouco tempo, lhe pertencia. Tragou a última dose e, como se estivesse em transe, começou a caminhar rumo à casa da deusa. Cabisbaixo, e calçando a máscara do desejo, prostrou-se em frente do prédio.

As lembranças renasciam em sua cabeça. Lembrava-se da boca, da voz, do cheiro do corpo, dos seios duros e fartos, do vaivém frenético do quadril, do gosto da boceta na boca. As lembranças excitavam-no, mas o medo da rejeição o fazia temer apertar o interfone. O desejo de vê-la era forte. A vontade de tê-la mais uma vez era enorme. O sexo perfeito, ali; era só apertar o número do apartamento e pronto. Pensou novamente se seria apropriado aquele momento, se não haveria outro em seu lugar, se ela ainda o desejava, se... se. Virou-se para a rua e almejou chegar à outra calçada, quando uma voz conhecida o chama.

O sorriso recebido e doado, as trocas de mãos, o beijo furtivo. Entraram prédio adentro, resenharam sobre fatos, coisas, festas, shows e beijos. O assunto surgia, o corpo reclamava a falta, o sexo cheirava.

As bocas se entrelaçaram num balé de corpos no chão da sala, corpos à mostra, seios, pelos, boceta, pau, sexo, gozo. Juras de desejo, beijos longos, amor imperando. Acabaram-se na sala. Janis Joplin cantarolava, e eles ainda com o desejo do amor em seus corpos. Caminharam de mãos dadas para o quarto, onde novamente se amaram.

O corpo dourado pela luz da lua, a boca com o gosto gostoso que só ela possui, os seios amados e cultuados, o púbis nu do pêlo, o amor no sexo. O gozo jorrava, a oração do gozo era repetida como uma ladainha, o desejo de morrer ali, naquela hora, era imenso. O quadril deslizava em suas mãos levando a bunda direto ao seu cacete. O urro do tesão preenchia o vazio do quarto. Seu amor, de quatro, sendo possuída mais uma vez. O céu ali.

Amaram-se durante horas. Horas que pareciam meses, tamanha a intensidade do amor. De pé, ele a beija e desce a escada ganhando novamente a rua. Prometendo a si próprio que voltaria e reencontraria a paz novamente.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Renasceis

Não me prostituo mais. Acho simplesmente nojento o fato de algum outro corpo me encostar sem ao menos me amar. Mãos que não pertencem ao meu coração não pertencem ao meu corpo. Sexo sem o desejo de acordar no outro dia pela manhã e novamente amarmos. Cafés sem intimidade. Dinheiro imundo colocado sobre a mesa de um quarto qualquer. Dinheiro qualquer como o sexo malfeito e obrigatório – disse ao encontrar um ex-cliente que a interrogava sobre o porquê da sua ausência nas festas promovidas por Madame Ortiz.

Parada na praça de alimentação daquele badalado shopping, chamava a atenção de todos. Não tinha homem que não a olhasse com cobiça. Cobiça que antes era fácil de saciar. Hoje não mais. A vida vil que tinha não lhe pertencia mais. Suas pernas maravilhosas, seus seios fartos e duros e sua boca carnuda agora pertenciam a apenas uma pessoa. Seu amor.

Pasmado com o que acabara de ouvir, pôs-se a afastar o mais rápido possível daquela tentação acessível em outros tempos. Ela era sorriso só. Mais uma vez havia marcado o território do amor em seu corpo. Corpo que já havia passado de mãos em mãos. Bocas em bocas. Seios em seios.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Morro do ABC

Morro do ABC, terra de ninguém, aliás, terra de um homem só. Este homem truculento e vingativo detém todo o poder da comunidade através da violência. Violência que também ajudou a produzí-lo.

Aos sete anos de idade, Marcelino Ferreira era apenas um pequeno, um catarrento como se dizia. Vivia correndo entre os esgotos fétidos daquele aglomerado. Viu seu pai sendo violentamente fuzilado. E como Sérgio Brito e Nando Reis escreveram em “Marvin”, o pai colocou todo o peso da família em suas costas. E isto logo as sete anos de idade. Passado alguns anos, quando estava com dez, viu a mãe sendo violentada e logo depois fuzilada por um grupo de policiais velados. O ódio do pequeno engraxate, profissão que conseguira exercer até o momento, explodiu. A pequena besta-fera que morava dentro de seu coração tomou conta de seu ser.

De engraxate virou vapor, posto que teve pequena duração, pois logo-logo virou soldado. Demonstrando muita desenvoltura com números, além de uma grande fidelidade e agradecimento a João Doido, este dono do morro, foi promovido a gerente. Assim que assumiu tal cargo sua vida mudou. Começou a aproveitar mais o dinheiro que o tráfico lhe rendia. Mulheres, carros, armas, festas e status. De Marcelino Ferreira transformou-se em Marquinho Mão Pesada. Foi agraciado com tal título, pois sempre que pegava alguém roubando na venda do produto, era castigado severamente. Dizia que tinha as mãos de ferro dos deuses da justiça. Que Xangô não escute isso.

Mas o tempo foi passando e Marquinho foi ficando ambicioso. O cargo de gerente não era nada em comparação ao de dono do morro. Arquitetou um plano malicioso e infalível para a derrocada de João Doido. E num belo domingo, como foi religiosamente planejado, João Doido é encontrado morto. Parada cardíaca. Sem traços de envenenamento ou qualquer outra coisa. Todo mundo sabia que os dedos de Mão Pesada estavam presentes naquele ataque. Afinal, Doido tinha apenas trinta e dois anos, idade tida como avançada no ramo da atividade que exercia. Pela primeira vez no morro não houve luta para decidir quem seria o novo dono. Marquinho Mão Pesada foi apoteoticamente conduzido ao cargo. Louro e glórias ao novo César, como diriam os romanos.

Desde então, o morro vivia sob suas mãos pesadas. Era necessário apenas um leve deslize para que o sujeito fosse punido. Às vezes a morte não era o bastante, era mais didático humilhar o desventurado em praça pública. Somente em casos extremamente escabrosos que a morte era utilizada.

E assim o Morro do ABC ia vivendo “pacificamente” e “harmoniosamente”, até que um dia um fato novo aconteceu...

Um novo pai fuzilado, uma mãe violentada, um filho com uma nova missão, uma caixa de engraxate abandonada...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Urbanidade

Um menino,
Os pés descalços,
Sacolés branco,
Vapor barato,
Tiro ingrato.

Uma voz rouca,
Negra flor sobre a mesa,
Castiçal imponente,
A luz branca de vela,
Corpo sobre a mesa,
Treze anos.

A dor necessária no recinto,
Mulheres chorando,
Meninos correndo no quintal,
Cigarros acesos,
O óbito como deve ser,
Bola esquecida.

Terra escavada,
Choro com dor,
Ônibus do dono,
A boca em luto,
Mãe que morre,
Pai que chore,
Infância se finda,
Vapor barato.