sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Passageira


Meninas anêmicas,
    Movimentam o cone sul.

Vestes rasgadas,
   Fome aborígene.

Demônios endêmicos,
   Estragam o céu azul.

Mente congênere,
   Cáustica é a cor.

Veto o movimento,
   Solidão abraça.

Mãos decepadas,
   Forte dor.

Apenas lamento...
   A vida passa...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Desilusão


Preciso te amar,
   Em lençóis brancos carmim.

Desejo te beijar,
   Ver seus olhos sorrindo assim.
 
Devo te matar,
   E arrancar esta dor de mim.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Luta e dor


Tristeza mata,
Quando assim,
Vejo o homem.

Avança a idade,
Avança a miséria,
A-van-ça.

Luta,
Dor,
Ele,
Idade,
Avança,
Luta e dor,
Lutador.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sonhos intranquilos II

Entrei em colapso. O céu está vermelho. Fortes dores me atrasam a visão do infinito. Farpas me rasgam a pele. Pele me sobra ao prato. Me perco, perco-me, me cerco. Repito o mesmo mantra que aprendi quando tinha apenas do-ze-a-nos-de-i-da-de. Tudo vem tudo vai. São Paulo florida no meio da Augusta. Me esquivo entre caminhões e rubéolas. Sinto o mudar do tempo. Tempo... templo... convento... convenço. Néctar de limão em minha boca me faz pedir o doce salgado da vida que tive. Tive vida em outros dias, em outras vidas, em outro país, em outros. Mariposas envaidecidas me seguem o corpo quente. Nascente no meio do asfalto turvo da Afonso me leva até ao municipal parque. Entro em balões gigantes preenchidos de helium, e finalmente afino o corpo, a voz, o algoz. Ernesto me sacode. Com os solavancos em meu pescoço olho para o lado. Ele ruivo, de barba negra, sorri. Os dentes sujos, pretumes de mangue que não existe nas Gerais. Com um hálito adocicado pelo jatobá, colhido na esquina da Barata Ribeiro, ele me conta que novamente sonhou com a noiva de vermelho. Ela estava linda, vestida para o sepultamento do seu avô e ca-te-go-ri-ca-men-te, mentiu para não mais crescer nas ruas de Coritiba. Passo minha mão direita sobre a cabeça dele e sinto um calor gélido que me convence que as alucinações constantes de Ernesto são causadas pela flor esculpida em minha mão destra. Arranco do peito o colete que me aprisionava. Ernesto faz o mesmo. Com a estupidez de um vulcão em erupção, levantamos do banco da praça e olhamos novamente para o entardecer de mais um dia lilás vivido em nossas vidas cáusticas. Eu olho nos seus olhos e encontro o caminho que devemos seguir. Aponto o dedo para a direção do nosso caminho traçado pela cartomante que visitei em Budapeste. Ele concorda. Seguimos em direção oposta à indicada, afinal, não queremos o fim, e sim entender o começo. Uma forte dor me assola a sola do pé. Passo os dedos em meus olhos castanhos, que com a dor da hemorragia que me persegue, ficaram rubros. Levanto a cabeça, sacudo o pescoço e entendo que mais uma vez tive sonhos intranquilos. Acordo Ernesto e sigo em frente. Ele me segue.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

In-Gênios


In-compatibilidade de gênios,
Gênios compatíveis,
Gênios?
Compatíveis?
Não?
Eles, dois,
Um e dois,
Fortes,
Geniosos,
Ambos,
In,
Duo,
Três.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Desconcertante

Rodas psicodélicas me envolvem o corpo,
Sinto um leve nojo no asco que me detêm,
Nervos na pele flor,
Devasto o horizonte desconcertante,
O ócio negado a rigor,
Rosto... corpo... ouço...
Músicas para os meus ouvidos,
Estes entupidos.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Na chama azul do isqueiro amarelo

Minha cabeça dói - pensava enquanto acendia o cigarro na chama azul do isqueiro amarelo. Dedos da mesma cor estampavam o sabor da nicotina entediante sugada ao romper dos anos. A barba por fazer, a mais de três anos, o cabelo esvoaçado e o sentimento de que naquele dia tudo seria igual ao dia anterior, que por sua vez, foi igual ao mesmo dia com o mesmo número de identificação há doze meses. A vida era um ciclo vicioso.

A língua ainda estava dormente, o sacolé enrolado no bolso esquerdo da calça jeans denunciava, que mais uma vez, utilizou daquilo que prometera nunca mais usar. O branco era o mal, o dito pelo não dito. Na última vez que a encontrou jurou, de pé junto, que jamais ousaria a usar aquilo para entorpecê-lo. Mas a cabeça doía, e nada mais poderia ser feito em cumprimento a jura jurada entre lágrimas salgadas do desejo dela ficar. Uma tragada no cigarro, os pulmões em cinza cor da nicotina, os dedos amarelados, o sabor na chama azul do isqueiro amarelo.

O sol clareou no horizonte, aqueceu a mente, o sangue correu mais fácil com o calor na pele. A costa da mão direita suja estava coberta com a névoa horripilante da dor, um cartão de crédito na mão esquerda. Estradas de carrinhos de plásticos bolha são feitas em segundos e em milésimos, destes mesmos segundos, desaparecem.

Merda e a minha cabeça continua a doer – Debruçou sob o joelho e deixou o dia passar.

Árido e pálido

Necessito amplamente,
Abrir meus horizontes,
Doses entorpecentes,
Desejos aflitos,
Negados firmemente,
Entre náuseas e dentes.

Verrugas me saltam aos olhos,
Molho os dedos nas lágrimas,
Desejo o sujeito da frase,
Entrego-me...

Mendigos ácidos,
Negligencio solidão,
Aperto os dedos contra o corpo,
Dedos pálidos áridos,
Noites abertas ao clarão,
Em vinhos de tinto corpo.

Horizontes entorpecentes,
Aflitos áridos pálidos,
Dentes arrancados ao clarão,
Entrego-me...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O reino dos 20 andares

Corria pela escada feito um louco. Subia e descia, descia e subia. Assim eram seus ritos de diversão, naquele verão de 1979. Férias de escola, e na mais lúdica idade, divertia-se com pouca coisa. Aquele espaço era bem diferente do que estava acostumado, nada de terra, nada de água, muito menos do esgoto pútrido que escorria pela rua de casa. Ali, naquele lugar de 20 andares, era somente concreto. Concreto também foi o sonho realizado de ver o mar. Ah!, o mar... Aquela imensidão azul, que até aquele verão só havia visto através da televisão em preto e branco, e era bem mais belo que a figura cinzenta, apresentada através da caixinha que viajava durante as noites na casa do Sô Osvaldo. O cheiro do mar. A cor do mar. O frio do mar.

Uma vez por dia, ele podia ir ali. Passar seus pés na areia branca, sentir as cócegas provocadas pelos finos grãos, sentir o cheiro do mar, encher o pulmão e se entregar a grande maravilha das águas. Com o sol ainda em riste, ele tirava a camisa, descia o calção de brim, largava as sandálias e corria ao encontro ao mar. Pulava a primeira ondinha, se entregava de corpo na segunda e na terceira entregava a alma a Poseidon. Nadava e nadava, seguindo a longa faixa de areia. Acabava-se entre braçadas e pernadas. Pulava onda, furava onda, se enrolava na onda. A água salgada nos olhos, na boca, no corpo. E assim soltava-se, esquecia de todos os infortúnios que havia vivido até hoje na sua longa vida de nove anos. 

Nove anos de lar em lar, acompanhando sua mãe. Em algumas casas era desprezado, em outras nem era notado, e esta indiferença doía mais. Mas ali, naquela casa, naqueles vinte andares, naquele mar... ele era ele.  Sentia-se dono da vida, dono do mundo, dono da mãe, ao menos naquele período, onde ela estava liberada de acompanhar Sô Osvaldo. Este o tratava como filho. Dava balas, brinquedos, carinho, e principalmente, deixava a mãe o acompanhar durante algumas horas do dia. E além de tudo o presenteou com o mar. Ah!, o mar... Depois de certo tempo, ela o chamava, tomava uma ducha fria na barraca de frutas, enxugava-o e iam embora para o reino dos 20 andares.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em transe...

Em transe, corria pela rua afora, na expectativa de alcançá-la mais uma vez. Todos os corpos lembravam o dela, todas as vidas eram a dela, todas as noites sonhava com ela. Respiros e afagos, na cama do pensamento, faziam com que ficasse mais fissurado no novo reencontro. As noites turvas, os dias gris, o corpo dela num copo de conhaque e o cheiro do ar que ela respirava. Tudo o entorpecia, e a idéia de encontrá-la mais uma vez, talvez a única vez, o deixava assim... em transe.

Nas esquinas imundas e pútridas, ele se aconchegava. Mendigava o encontro, o afago, o doce, a neve branca e sutil dela. Tudo era ela, até mesmo a dor, e disto ele entendia bem, do desencontro maldito causado pela mesma dor, porém que outra provocara, o céu gris da tarde calorosa do outono vivido no inverno. O isqueiro aceso, a cigarrilha soltando fumaça, o ar enfeitado pelo cheiro da erva cubana no ar. O transe...

No quarteirão fechado entre Carijós e Afonso Pena, ele se prostra. Ergue as mãos para o ar e relembra o primeiro encontro, talvez o encontro que nunca existira, e chora... chora um choro chorado de coisas estranhas nervosas. Os joelhos dobram, a gravidade força o encontro maldito do calçamento com o seu rosto débil. Lágrimas salgadas banham a face cansada da procura do encontro. As forças falham, o enjôo chega e a luz vai se definhando... a sensação é reconhecida... o transe.

Um afago a cabeça é sentido. O ar é reconhecido, o molde moldado contra o sol  é perceptível. Não pensou nem uma vez, agarrou-se nos braços longos dela e desapareceu pela Amazonas... em transe.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Lilás

Depois de cada azul,
Um novo lilás,
Mesmo nu,
Veja a vida voraz.

Depois de tudo blue,
Não vai olhar pra trás,
Mixar dor com alcaçuz,
Chorar... não vás.

Depois de tudo azul,
Não olhe para trás,
Depois de cada blue,
Verá um novo lilás.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Versos

Em diversos versos,
    me disperso.

Nestes versos, me resto.

Detesto?,
       é certo!

Mas,
   me resto,
         nos versos
                     diversos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bola morta

Mais uma vez a vida lhe prega peças
A bola amarela encoberta, ela, a final
o pano verde do bilhar, o copo de cerveja na ponta

o taco velho, meio torto, lambrecado de giz azul
e a bola amarela próximo à caçapa

Mais uma vez a vida, passando pelos olhos
A luz rubra, as pessoas indo, chegando, parando para ver o jogo

o jogo da vida, o jogo da morte e do trago do maldito cigarro
Lembrou de parar de fumar, lembrou tarde demais
Parou, mirou, respirou ofegante

pulmão cheio, visão turva, taco, dedos, olhos, corpo.
A bola amarela e a preta, na caçapa oposta.
Não errar - pensa. Não errarei - afirma
e a vida passa novamente por entre os dedos, indo... vindo...

o braço força
lembra dos filhos que estão em casa, da mulher... traga de novo - maldito vício
A bola branca voa por cima do pano verde, trajetória retilínea

passa-se um, dois segundos intermináveis e... le n t a m e n t e acerta o alvo
a bola branca, a bola amarela...

escrito por Clovisnailton

Babilônia macedônica

Babilônia afônica,
Nos desastres errôneos,
Macedônia que me ama,
Em ninfas invejosas,
Onde a fé é a maldade,
Que sugerem sacanagem.

Nudez enrustida,
Nervos a pele flor,
Asco do nunca,
Da terra da fuga,
Falta do amor.

Babilônia afônica,
Acertos pseudônimicos,
Macedônia me despreza,
Narcisos espalhados,
Em doces ácidos,
Minha vida arrasada.

 Negra dor oblíqua,
Em raios azuis lilás,
Merda cor em riste,
Sinto falta do ar,
Na atmosfera rarear.

Babilônia afônica,
Macedônia que me ama,
Babilônia afônica,
Macedônia me despreza,
Babilônia afônica,
Macedônia...

quarta-feira, 8 de junho de 2011


Ele sorria,
   Só ria ele,
     Ele, só, ria.
      
                                              Ele só.

                          Só ele.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vejo a vida fugir

Um beijo roto,
No rosto louco,
Ecoou para mim.

O rasgo do fato,
No céu aberto,
Não foi assim.

Vejo a vida fugir... fugir...

No largo risco,
Do rosto roto,
Aberto assim.
 
O gozo,
Roto do louco,
Goza de mim.
 
Vejo a vida fugir... fugir...

Nem cravos,
Nem rosas,
Cuidaram de mim.

Nem dor,
Ou sorte,
Fizeram-me assim.

Vejo a vida fugir... fugir..

terça-feira, 31 de maio de 2011

Aquietar

Assim, olhei para o lado,
Não te vi,
Com o olhar parado,
Molhado fiquei.

Com desespero,
O aço que me atravessava à fonte,
O penhasco me esperava,
Não tive dúvidas,
Pulei em teus braços,
E me afoguei repetidas vezes,
Esperando que o lastro me levasse,
Dali, longe perto.

Asco do aço que me abraçava,
E molhado,
Com o desespero do mar,
Aquietei-me.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O nu do Outro

Entre a loucura irritante e o grito, ele ficava nu. Preferia assim. Desnudo do frenesi da vida, do vinho, do ópio. Era assim que ele se sentia... nu.

Não se importava em escutar comentários alarmantes sobre a sua nudez de gente sensata. “sou nu e livre” – dizia a todo instante a si mesmo. Já o Outro, ficava encabulado com a nudez dele próprio. Sentia-se enfadado diante de tanta irreflexão. “Era isso que ele queria pra ele?”- não sabia julgar, afinal, o frenesi freqüente o deixava mais extasiado que nunca.

Nunca... nunca... never...nie...asla...

Negava-se em toda e qualquer língua existente. Tudo isso para ter o direito dele, e do Outro, de ficarem nus. De dia ou de noite, em casa ou na rua, almoçando ou jantando. O que importava era a nudez.

Assim, nu, ele era capaz de dizer a verdade, de sentir a verdade, de ver a verdade.

Nudez e verdade andavam juntas, para ele, já para o Outro, não.

Mas, em suma, nu a vida não tinha como se esquivar da verdade. Sem máscaras, sem apetrechos, sem nada, simplesmente nu... verdadeiro.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O frio no Vale do Sol

Pela escuridão do vale do sol, ele andava. Chutava latas e aslfato. Tudo ali era inexato. Avenidas com nomes de quintas e primeiras, já as ruas, com nomes de planetas. E o vale do sol, naquela madrugada, como era de costume, estava frio... gélido. 

Caminhava por ali, sempre ao voltar de algum lugar, sempre sozinho, sempre por ali. Nada daquilo fazia sentido, o sol do vale nunca era verdadeiro. O frio sim era legítimo. Tão real como o fim do universo e o medo gritante que rondava o seu vale do amor.

Ela, a maldita, o havia deixado mais uma vez. E ele, louco e tonto, torto e morto, sofria ao anoitecer... há saudade... ah saúde... há alguma coisa que precisava de ser revista. Tentava descobrir o porquê do fim. Ele ali, andando pelo vale do sol, no frio da noite, sozinho como não queria.

“Pessoa maldita”- ficava a pensar. “Pessoa nefasta”- ficava a penar...

Na curva, um carro, uma luz, o calor percorria o corpo, ela a sua frente, o vazio no bolso, a dor do amor, o nojo do gosto, o vento no ventre, a sombra da luz, o sono frio no Vale do Sol...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Amor

Ó meu amor, por tão presente que estás e tão honesto que sejas, eu me perco. Perco pelas portas que entro ou nas ruas que adentro e, às vezes, até mesmo, às vezes, no afago gostoso dos teus seios.