quinta-feira, 29 de abril de 2010

Eu disse tchau quando fechei a porta do carro

Eu sei bem o que quis dizer quando fechei a porta do carro e disse um indecente tchau. Não foi uma despedida simples, tão pouco corriqueira, foi o final. Final do ciclo que se iniciou e findou-se ali, naquela esquina. Esquina fétida como o cheiro terrível do teu perfume que prefiro nem dizer ou sentir. Sabe muito bem o que vivi. O inferno, o umbral, minha vida sem vontade. Não respirava, não amava, não sentia nada.

Eu sei bem o que quis dizer quando fechei a porta do carro e disse meu derradeiro e sólido tchau. Estava abrindo a porta da minha vida, do meu ser, da minha colônia. Sei bem, você se fez de vítima. Eu descobri por meios tão melancólicos que me fazem envergonhar de mim mesmo. Eu sei bem. Olhei em seus olhos. Invadi cada pedaço de falta de pudor nesta tua vida ínfima. Vida crua, nua, impura.

Eu sei bem o que quis dizer quando fechei a porta do carro e disse meu bombástico e translúcido tchau. Era o passaporte que você tanto esperava. Que minha alma desejava. Que o universo dependia para continuar girando em torno do sol. O meu sol. O meu universo.

Suma pessoa nefasta. Coisa nojenta. Estúpido horrendo. Suma... desapareça!, deixe os raios do amor e da compreensão se aconchegarem em meu vazio coração. Eu disse tchau quando fechei a porta do carro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Urbanidade

Um menino,
Os pés descalços,
Sacolés branco,
Vapor barato,
Tiro ingrato.

Uma voz rouca,
Negra flor sobre a mesa,
Castiçal imponente,
A luz branca de vela,
Corpo sobre a mesa,
Treze anos.

A dor necessária no recinto,
Mulheres chorando,
Meninos correndo no quintal,
Cigarros acesos,
O óbito como deve ser,
Bola esquecida.

Terra escavada,
Choro com dor,
Ônibus do dono,
A boca em luto,
Mãe que morre,
Pai que chore,
Infância se finda,
Vapor barato.

Pensativo

A vida me corrói. Eu corrôo a vida. Identificamos-nos cada vez mais um com o outro.
Eu e a vida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Vivido

Chegou, agarrou, unhou, tragou, marcou...

Fiquei assim, pro resto da vida,

Chegado, agarrado, unhado, tragado, marcado!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sangue e cuspe

Tenho que parar de beber – cuspiu o sangue que chegava à sua boca, depois de ter tomado mais uma dose do rum. A cabeça estourando, a falta das balinhas de cafeína, a dor doída de dentro pra fora. Maldito etílico, maldita dor, vida sorvida pelos copos. A moral, já não mais existia, perdeu-se pelos ladrilhos das latrinas da vida. O vital órgão, já demonstrava falhar. O fim estava prestes a chegar, e o sangue agora jorrava quase sempre. A vida seguia de copos em copos, sem trégua, sem falhar um só dia. Seguia de copos em copos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tragos malditos

Um clarão ilumina o quarto. O cigarro na boca pronto para ser aceso. Um vazio no peito. Certo deserto a ser preenchido. O odor da pólvora aromatiza o quarto. Uma nova luz alaranjada em forma cilíndrica. A primeira tragada. A fumaça do prazer cancerígeno preenche o deserto no peito.

Um suspiro. Um lamento. Um quarto. A falta do sono. Sozinho...

Caminha até a penteadeira e aciona o toca-fitas guardado desde a década de oitenta. Arnaldo canta, ele fuma... “um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for”. O lamento já era esperado. Ele já sabia que novamente passaria por aquele momento. E não seria a última vez. Isso também já sabia.

A dor me dá gozo? – Pensava ao tragar um pouco mais do câncer. O sabor de canela do maldito cilindro o trazia paz... paz... paz-me! O mundo girava. Ele atordoado com a química também. Maldita mistura, maldito câncer, maldito término.

Mas, mesmo assim, não dava o braço a torcer. Sabia que aquilo passaria, só não sabia quando. “toda memória dessa nossa estória se extinguir e você nunca vai saber de nada do que eu senti sozinho no meu quarto de dormir”.

A fita embola. Ele irritado desliga o toca-fitas. Outra baforada. Caminha ao banheiro. Lava o rosto e chora. Chora um choro triste. Sozinho no quarto. Última tragada, mais um pouco do câncer para matá-lo aos poucos. Afinal em sua vida tudo era aos poucos, em doses homeopáticas, até mesmo a morte. Menos o amor, a dor e a flor.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Noite de rei

Meio da manhã. Avenida Silva Lobo. Uma praça infestada de crianças e jovens. Trânsito infernal. Finalmente um lindo céu azul enfeitava aquela manhã turbulenta do lado de fora. Mas por dentro, a satisfação enorme o abraçava o coração. O mocassim azul, a bermuda branca e uma mulher estampando sua camisa. Ele descendo a avenida assoviando uma bela canção do Cavaquinho.

O corpo solto, sorriso largo, sol quente, trânsito infernal. O cheiro do amor bem feito o cobria e fazia com que tivesse boas recordações naquela manhã. Apesar do álcool consumido com abusos na noite anterior, a noite de rei, com a qual foi presenteado, não sentia a maldita dor de cabeça que sempre o esperava pela manhã.

Um carro passa, um cachorro mija na calçada, um moleque vende bala na Platina, um velho pede ajuda para sobreviver. E ele, alheio a tudo, continua seu caminho sem se preocupar com nada. Estava leve. Limpo. E finalmente feliz. Esquecido de tudo, até mesmo do cheque especial que lhe consome duzentos por cento ao ano. Queria lembrar-se de nada, somente da noite de rei.

Entra no metrô, assenta com o coração, fecha os olhos e finalmente chega à santa terra. Tereza o esperava no portão da Mármore.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Divagando

Por mais que eu tente, por mais que eu não queira, por mais que Ele tente me ajudar. Vivo e sinto-me só. Posso estar rodeado de tudo e de todos que o mundo confabula para que no final eu esteja só. Sozinho. Desacompanhado. Unicamente único. Unicamente só.

Sei que ajudei nesta tão dramática fabrica de solidão, mas o que fazer além de viver?

Sinto-me às vezes incompreensível comigo mesmo, e assim, vou indo e vindo nesta maluquice louca que resolvi chamar de vida.

Vida passa, amores passam, sonhos se desfazem e a única coisa que tenho certeza que não passará é a certeza que te amei!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Pronuncia do amor

- E quanto a vocês, que não acreditam no amor, estou aqui para provar a todos que amei uma mulher. Amei incondicionalmente. Fiz da minha a vida dela. Sofri por amar. Sofri por perder esse tão belo e puro amor. Hoje não sou mais o mesmo que antes. Não tenho a mesma face. Não tenho o mesmo brio. Não me julguem, vocês não sabem o que eu passei. Não fazem idéia da dor que sinto até hoje. E muito menos não fazem idéia do que aconteceu. Mas estou aqui. Com a vergonha a me abraçar e vocês a julgar. Não tenho medo de seu julgamento. Não tenho pena da minha vida. Não tenho mais o meu amor. Senhores transeuntes, que bondosamente pararam alguns instantes para ouvir o meu lamento. Um único conselho darei, amem! Amem sem medo, sem dor, incondicionalmente. Amem.

Uma salva de palmas é ouvida em toda Praça Sete. Ele desce da caixa de maçã utilizada como palanque e sai em caminhada até um novo ponto da praça para iniciar novamente seu discurso sobre o amor.

Alguns acham que ele é apenas mais um bêbado, que perdeu sua chance pelo álcool. Outros acham que é mais um louco. Desses loucos que de tanto usarem o que não deve e acaba ficando louco. Já os mais sábios compreendem a dor de um homem que amou verdadeiramente sua amada, e por algum motivo bobo, ou não, ficou perdido pelo caminho afora.

É simplesmente surpreendente olhar aquela figura na praça. A convicção de que ele fala do amor. Da dor que transmite em sua fala. Das lágrimas que descem de seus olhos quando fala em sua amada. Ele sim, realmente ama.

Volto novamente ao meu caminho, e sigo em frente. Mas depois de ter ouvido seu relato de vida, só consigo pensar em uma coisa... Amor! O amor na mais pura forma.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pensativo

Nesta manhã, onde tudo renovado apareceu, acordei surpreendido com a falta. Meu corpo não me pertence mais, assim como minha alma. Não sou mais o mesmo. E quem é? Depois de anos e anos do mais absoluto desinteresse pela vida que me cerca, não sou mais o mesmo.

Com o etílico que vive a me cercar, me sinto... toco-me... me converto a mais bela história de dor. Dor... sempre esta maldita me acompanha. Para ela pouco importa onde estou e como estou. Se feliz, se triste. Não faz diferença, ela sempre presente.

Se tu um dia, acreditar na volta do anoitecer, me avise. Conte-me, me desconte. Mostre-me como adorar novamente o luar, sem ao menos pensar nela uma única vez. A lua... Lua que me abandonou. Eu que abandonei a lua.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Querer

Eu queria esta noite,
Entregar-me em seus braços,
Ver seus olhos fumegantes,
Sentir o seu calor.

Nestas noites de outono,
Seu calor me faz falta,
Mesmo sendo eu,
O que sou,
E ninguém mais sabe o que isso quer dizer,
Sou.

Nesta noite,
Eu queria encontrar sua boca,
Deixa-te louca,
Arrancar-lhe a roupa,
Fazer-nos feliz...

Como em outras épocas,
De nossas vidas vividas,
Eu queria...

Xique Xique

"Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão

Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi a zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o, céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Vi a galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá

Eu vi o pai eu vi a mãe eu vi a filha
Via novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de deus num ovo vazio
Fiquei com frio te pedi pra me esquentá"
 
Fonte: Música: Xique Xique
          Autor: Tom Zé e  Zé Miguel Wisnik

Manhã de sufoco

Completamente atordoado e com a cabeça lembrando um ataque de maribondos, acordou. Não se recordava onde estava. Olhou em volta e não reconhecia nada. As portas, as janelas, o armário do quarto e nem mesmo a roupa de cama. E por falar em roupa, onde estavam as suas? Completamente nu, como veio ao mundo. Peladinho da silva.

Passou as mãos no corpo, viu que estava tudo no lugar. Depois de tantos emails descrevendo roubos de rins, foi logo conferir se os dele estavam por ali ainda. Tudo certo. Reparou que alguém estava no banheiro do quarto. O barulho do chuveiro ligado. O vapor da água quente preenchia o espaço do quarto.

Pensou na noiva, na mãe e até mesmo em Padre Eustaquio. Afinal era devoto e morador do bairro. Como iria explicar a todos eles a situação em que se encontrava. A noitada foi boa. O corpo todo marcado, o pênis dolorido e a dor de cabeça medonha o assombrava. Deus o que fiz desta vez? – pensava.

A vontade era de pegar suas roupas e sair correndo. E porque não fazer isto? Quando a idéia veio-lhe a cabeça deu um pulo da cama. Saiu catando as roupas no quarto afora. Vestiu a cueca, a calça, abotoou o cinto de maneira errônea, a camisa pra fora da calça e foi calçando os sapatos. Caminhou passo a passo até a porta e girou a maçaneta. Neste mesmo instante a ducha corona foi desligada. O coração apertou. Uma vontade louca de desaparecer. A porta do banheiro começa a ranger. Um aperto na barriga. Uma mão feminina aparece, e ele com vontade de ser a feiticeira e desaparecer. Uma perna estonteante torneada. Uma cara de bobo. Uma voz é reconhecida.

- Benhê!, onde você está indo?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Espetáculo de outono

Depois de te olhar pela última vez, senti o mundo ruir sob meus pés. Não sei como tive coragem de tomar decisão tão infame, mas tomei. Decisões foram feitas para serem tomadas, eu sabia disto, e as tomei. Não podia deixar aquilo tomar uma acepção monstruosa. O mal havia de ser cortado pela raiz. Não tive outra escolha. Os fatos eram claros, os personagens estavam escolhidos, a história era concisa. E a mim, diretor de tão funesto espetáculo de dor, sobrou tomar a direção correta.

Sentamos num boteco qualquer na Rua da Bahia. Olhamos tenramente nos olhos de nós mesmos, e com a boca perfumada pela cerveja gelada, começamos um papo qualquer. Por mais certeza que houvesse naquela decisão infortuna, queria deixá-la para tomá-la o mais tarde possível. Mas as coisas foram esquentando, o álcool já comandava a maioria de nossos atos e o tempo implorava que o mal fosse consumado.

Olhei para o céu, te mostrei a lua linda destas noites de outono. Fizemos planos, encenamos um primeiro ato da nossa peça da vida humana que temos. Sorrimos!, achávamos que éramos os donos do teatro. Mas os personagens já estavam escolhidos, o roteiro reescrito, o cenário desenhado, e eu, diretor da vida que não é mais minha... não tive opção.

Vi-te descendo a Bahia enquanto ficava na Timbiras. Ali na esquina, com o lagoinha a mão. O sabor amargo da mudança de planos, de atos, de atores, de vida, era sentido agora em toda a minha boca. Fiquei difuso. Nada encontrava com nada. Nem eu com você. A obra dramática da vida escrita e tristemente encenada.

No cenário de uma noite qualquer de outono, de uma esquina única de Belo Horizonte, meu único espetáculo de luz e alegria, transformou-se em uma grande e melancólica tragédia.

Noites de maio

As noites de maio me trazem dor,
Nestas noites andei perdendo minha flor,
Não sei quais os feitiços existentes em maio,
Mas em maio fiquei sem flor e com dor.

Um carro verde,
Uma hora imprópria,
Uma data...
Um maio qualquer.

São nas noites de maio...

Olho de lince

"Quem fala que sou esquisito hermético
É porque não dou sopa estou sempre elétrico
Nada que se aproxima nada me é estranho
Fulano sicrano e beltrano
Seja pedra seja planta seja bicho seja humano
Quando quero saber o que ocorre a minha volta
Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
Experimento tudo nunca me iludo
Quero crer no que vem por ao beco escuro
Me iludo passando presente futuro
Revir na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo sentir de todas as maneiras
É a chave de ouro do meu jogo
De minha mais alta razão
Na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão."
 
Fonte: Música: Olho de lince
          Autores: Jards Macalé / Waly Salomão

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Repensando

Os prazos vão correndo,
As datas vão aparecendo,
E os sentimentos de outrora seguem demonstrando os resultados de escolhas.

Manhãs de outono

O quê mais dói nestas manhãs claras de outono é sentir-me subjugado. Sejam pelas forças da dor, do amor, ou até mesmo pela coloração cinza do céu. É inevitável sentir tais apertos a me apertar.

No caminho da terra santa até onde sou sistematicamente entorpecido pela pressão do dia-a-dia, venho sentindo a falta do calor das manhãs do meu último verão. Não sei quando este calor voltará ou até mesmo se voltará. O calor do quadrado mágico em minha terra santa.

É bem certo que o inverno chegará impiedoso. E nós, amantes da vida sofrida, sofreremos mais e cada vez mais, com a falta da vigília da pessoa amada ao nosso lado. Mas a dúvida continua e sempre continuará pairando sob nossas cabeças: "O que é o amor, onde vai dar, luar perdido em mim...".

terça-feira, 13 de abril de 2010

Poesia

"Sorri
Quando te conheci,
Quis ser de mais ninguém
Existia um porém que eu fiquei sem saber
Se o que tinha de ser me fazia sorrir
Menti, resisti com ardor
Não pensava em querer
Foi olhar pra você e o cenário mudou
E ficou tudo azul como tinha de ser
Deixei a mão da poesia rabiscar um poema
Pra falar de amor
Ter você como tema
E agradecer em verso a prosa que eu ouvi
Em letra e melodia
Agradeço o dia em que te conheci"
 
Fonte: Música: Poesia
          Autora: Teresa Cristina

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mal-dito, bem-dito

Mal-dito é a dor, bem-dito é o amor.

Maldito é o espaço do tempo em que deixamos de nos ver,
Bendito são as horas em que passamos nos amando.
Maldito é o ódio que nos preenche o coração,
Bendito são os dias em que estive ao teu lado.
Maldito é aquele momento em que a raiva tomou conta,
Bendito foi o instante quando aceitamos nosso amor.

Mal-dito é o rancor, bem-dito é o amor.

Maldito foi o dia em que me amaldiçoou,
Bendito o dia em que me abençoou.
Maldito o instante que resolveu me esquecer,
Bendito o exato segundo em que se lembrou de mim.
Maldito foi a noite em que sua luz foi embora,
Bendito é o sorriso da sua boca que ficou comigo.

Vida mal-dita, Vida bem-dita.